sexta-feira, agosto 15, 2008

Caserna Reformada

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Ternuma Regional Brasília

Por Carlos Alberto Cordella

No atual Estado Democrático Brasileiro todos podem se manifestar aberta e livremente, exceto os militares. Basta abrirmos os jornais de maior circulação, contemplados com generoso reforço de caixa do governo federal, para numa rápida passada observarmos a discriminação doentia e o revanchismo latente contra os militares.

Casualmente recebi um e mail sobre um artigo intitulado caserna reformada. O autor do mesmo, jornalista, professor e escritor renomado, em apenas três laudas, apresenta uma análise estrutural, conjuntural, política e doutrinária sobre as Forças Armadas das mais estapafúrdias que já tomei conhecimento.

Um verdadeiro samba do crioulo doido.

O mínimo que se espera de um jornalista competente é que se aprofunde na matéria e consulte especialistas da área quando o assunto não é de seu conhecimento. Evitaria assim escrever um arrazoado desconexo expondo sua total ignorância sobre o tema. É comum no Brasil, jornalistas se intitularem professores e analistas militares para analisar questões militares que vão além de seu conhecimento e compreensão. Esses artigos, normalmente, são recheados de ranços ideológicos e colocações pessoais que empobrecem o tema e o desqualificam como matéria jornalística informativa.

O artigo assinado pelo jornalista Leandro Fortes extrapola pela miscelânea de assuntos distintos tratados como uma coisa única.

O autor fala sobre um difuso Ministério da Defesa, criado em 1999, cujo comando entregue, invariavelmente, a políticos ou burocratas despreparados para o cargo, não conseguiu até hoje dar um passo a frente ou justificar sua criação. Desde 1999, que esse Ministério tem sido tratado pelo governo como um elefante branco. Em termos de conciliação houve apenas retaliação e descaso para com os assuntos militares. O problema tem sido o governo e não os militares. A prova disto é o sucateamento material e pessoal imposto as Forças Armadas nos últimos governos.

O comentário sobre o Plano Estratégico de Defesa Nacional que promoverá uma transformação radical na vida dos quartéis afirma que enquanto “o texto não sai” é grande o alvoroço entre os militares.

Esta uma análise bem simplória sobre assunto tão importante. Qualquer reestruturação nas Forças Armadas vai esbarrar no velho e conhecido problema de recursos orçamentários. A menos é claro, que o professor jornalista ache que basta “o texto estar no papel” para ser concretizado.

Em meus trinta anos de caserna vi muitos textos sobre reestruturação das Forças Armadas e nenhum saiu do papel por falta dos investimentos. Não causa preocupação a tropa, a redução do número de generais e também não seria isto motivo de alvoroço ou temor como citado pelo jornalista.

As estruturas de Comando não seriam afetadas como faz supor o jornalista incauto.

Lembro que com a redução do número de generais haveria um natural, conseqüente e desejável fortalecimento do poder de fogo dos Coronéis, tal qual em 1964 quando a estrutura do Exército era alicerçada sobre os Comandos Operacionais e não de gabinetes.

O número de Generais aumentou justamente para tirar dos Coronéis o poder de fogo que detinham.

Achar que com esta decisão esse poder será transferido ao Ministério da Defesa que concentrará todas as decisões relevantes à vida militar além de neutralizar lideranças como a do General Heleno é o mesmo que dar um tiro no pé se o tiro não sair pela culatra, no velho jargão militar.

Sobre a chamada crise dos controladores de vôo, na realidade foi um motim, com o aval do então Ministro da Defesa e cuja ação foi simplesmente desastrosa, nada tendo a ver com a disciplina militar. A situação foi de oportunismo e mais uma vez gerada pelo descaso do governo que contingenciou recursos num setor já crítico e agravado com a falência da Varig. Não cabia ao presidente da República interferir em medidas administrativas internas quando o Comando da Força Aérea havia determinado a prisão dos militares insubordinados. Insubordinação é crime militar, previsto em lei, portanto fora da alçada do Presidente da República. Para isso existe a Justiça Militar. Naquele momento Lula mesmo sendo o Comandante em chefe das Forças Armadas quebrou a disciplina e quase gerou uma crise institucional. Numa democracia o respeito é mútuo. Na democracia as leis devem ser cumpridas até mesmo pelo Presidente da República. Não cabe neste episódio a citação de subordinação ao presidente e não devemos confundir subordinação com subserviência.

A análise da distribuição das unidades militares pelo território nacional esbarra sempre nos recursos orçamentários para suas transferências. Não adianta colocar no papel e não liberar recursos para que haja uma distribuição de acordo com a nova política estratégica do governo.

É sempre bom lembrar que política estratégica é decisão governamental e não militar. Também é bom lembrar que esta, hoje depende muito mais da concepção ideológica do atual governo do que dos objetivos permanentes de soberania e defesa.

O jornalista ao colocar que a Doutrina de Segurança Nacional, herdada dos tempos da Guerra Fria e da ditadura, ainda dá o tom da formação intelectual de oficiais e praças das Forças Armadas deve ser considerada no mínimo absurda e ingênua.

A doutrina militar brasileira tem como base a doutrina militar americana que foi incorporada durante a participação do Brasil na segunda guerra mundial.

Antes da segunda guerra mundial o Brasil utilizava a doutrina francesa. Após a segunda guerra mundial nosso equipamento era quase todo americano e baseava-se numa doutrina que até hoje continua sendo a melhor. É muito justo que se adapte a experiência de combate americana as necessidades brasileiras, ainda que no atual governo os americanos sejam considerados grandes inimigos do Brasil.

Se com o passar dos anos não houve os investimentos necessários e o acompanhamento da evolução tecnológica cabe esta responsabilidade ao governo que não deu condições aos militares de evoluir sua doutrina de emprego limitando-a aos equipamentos e materiais obsoletos disponíveis.

Sobre a visão do jornalista em repensar projetos fica aqui uma pergunta bem simples. Porque todos os projetos elaborados nos Centros de Pesquisa e Desenvolvimento das Forças Armadas e que seriam desenvolvidos com tecnologia nacional como o caça FX, as fragatas e o próprio submarino nuclear, além do carro de combate Osório, os mísseis terra-ar, o sistema de radares e a própria indústria bélica brasileira deram em nada?

Apenas porque os governos deram início a esses projetos e depois cortaram recursos para sua implantação. Ressalte-se que a retomada de um projeto de sofisticada tecnologia paralisado é altamente dispendioso e que este não é justificável se não houver o respaldo do governo para a aquisição do produto pronto. Nenhuma indústria abraçará um projeto desses se não houver retorno financeiro e para isto o governo precisa garantir o investimento em grande escala do produto final.

Sobre a Amazônia seria interessante o jornalista tomar conhecimento do projeto calha norte que rapidamente descobriria que as Forças Armadas fizeram o seu papel, porém quando chega a vez dos governos fazerem sua lição de casa, estes apenas mantém o texto no papel.

Ainda me chamou a atenção uma frase do jornalista onde ele diz categoricamente:

-“O desinteresse pela carreira militar é resultado da baixa remuneração, além das dificuldades naturais da vida militar, cheia de normas disciplinares, transferências de domicílio e relações nem sempre justas entre superiores e subordinados”.

Confesso que jamais havia lido tamanho disparate em apenas três linhas. A baixa remuneração sempre fez parte da vida dos militares, apenas que neste governo e no anterior atingiu níveis humilhantes em relação às demais carreiras do Estado. Quer dizer então que a carreira é cheia de normas disciplinares e transferências? O que posso dizer sobre isso sem ofender o intelecto do jornalista? E quanto às relações nem sempre justas entre superiores e subordinados é bom que fique claro que na democracia militar ordens não são negociáveis são para serem cumpridas. Todos sem nenhuma exceção passam por situações de superiores e subordinados. Ou será que um Coronel não se subordina a seu comandante imediato? Será que um sargento não é superior a um cabo e este não seria superior a um soldado? As promoções na carreira se encarregam de transformar subordinados em superiores Todos são promovidos durante a carreira.

Onde será que o jornalista quer chegar com estas considerações? Derrube isto e terá derrubado os pilares de sustentação da carreira militar onde a hierarquia e a disciplina são os faróis que conscientizam a servidão e que este tributo está acima dos interesses particulares. Esta servidão é que nos faz diferentes e que nos coloca como servidores do Estado e não dos governos. Será esta a nova concepção governista de reforma das casernas? Forças Armadas ou apenas funcionários públicos fardados subservientes e lenientes a um governo corrupto e com viés ideológico questionável?

E concluindo, a análise sobre o serviço militar obrigatório é ainda mais triste de se ler. Afirma o jornalista que o serviço militar é dominado por jovens das favelas e das periferias e o resultado seria a formação de delinqüentes que anualmente abastecem as fileiras do crime organizado. Fica claro que para o jornalista todo jovem da periferia é um provável futuro bandido em potencial adestrado pelas Forças Armadas.

Meu caro jornalista o problema do tráfico de drogas, da delinqüência, criminalidade e violência nos centros urbanos nada tem a ver com as Forças Armadas, mas sim com a ausência do Estado que não investe em programas sociais sérios, que não investe em segurança, que bate recordes na arrecadação de impostos e não os aplica em benefício coletivo, mas em benefício de sua ideologia tacanha.

Se o governo gastasse bem e onde é preciso não teríamos esses problemas a níveis alarmantes. Isso não é culpa das Forças Armadas.

A intenção de incluir jovens de todas as classes no compromisso de defesa da Pátria com a criação de um serviço social obrigatório, como nivelador republicano, nem sei que asneira é essa, não passa de mais um absurdo ideológico de uma cabeça vazia que mal consegue falar português quando se expressa.

O que seria uma instrução militar básica para agir como força de reserva capaz de ser mobilizada em situações de emergência nacional?

Talvez o jornalista desconheça que as Forças Armadas já possuem suas reservas em caso de mobilização e que se isto não é realizado continuamente deve-se ao fato de que essa mobilização implica em recursos orçamentários para tal fim e estes não são alocados pelo governo.

Fica claro que as prováveis propostas do governo nada têm a ver com reestruturação das Forças Armadas, fosse isto e o governo acabaria com o serviço militar obrigatório transformando em efetivo permanente todos os cargos nas organizações militares extinguindo o efetivo variável preenchido por recrutas que prestam o serviço militar obrigatório.

Seria bom que o povo brasileiro prestasse atenção nas reais intenções desse governo que tenta mascarar um golpe a ser aplicado nas Forças Armadas com a conversa mole de Ministros e jornalistas adeptos de uma confraria sectarista omitindo suas verdadeiras intenções.

Como bem disse o General Heleno, um exemplo de militar e profissional, que neste momento deveria ser o grande farol de orientação de todos os militares, não será com um poodle que se defenderá uma mansão do tamanho do Brasil, nem tão pouco com um texto primoroso esboçado no papel.

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